janeiro 17, 2010

Haiti nos Jornais*

5 – Le Soleil (Quebec, Canadá)

4 – Zero Hora (Porto Alegre, Brasil)

3 – O Tempo (Belo Horizonte, Brasil)

2 – RedEye (Chicago, Estados Unidos)

1 – Le Journal de Montréal (Montreal, Canadá)

* Lista feita por este blog a partir das 838 capas de jornais sobre o assunto disponíveis em Newseum.

janeiro 16, 2010

O Canudo Desnudo

Dizem que entrar na UFBA é difícil. Pois eu estou achando difícil mesmo é sair de lá. Cinco anos de expectativas que explodem em uma grande lambança. E tudo por culpa de um erro grotesco de profissionais que, por falta de um adjetivo melhor, só posso considerar como inacreditavelmente despreparados. Para quem ainda não está familiarizado com a situação, explico.

Em meados de 2009, os formandos da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia deveriam prestar o Exame Nacional de Desempenho de Estudantes (Enade). Todos deveriam ser inscritos, mas, por causa do erro mencionado acima, nem todos foram. Trinta e um ficaram de fora da lista e, agora, esses trinta e um, que à época se acharam sortudos por não perderem um domingo em uma prova chata, estão impedidos de receber o diploma.

Se isso não fosse o bastante, as instâncias universitárias resolveram jogar mais pimenta no enredo, e decidiram que ninguém, repito: ninguém, está apto a receber o bendito documento. A confusão, claro, se instalou.

Uns já entraram na justiça, outros pretendem seguir o mesmo caminho e, para não perder o costume de nosso país tão civilizado, corre o boato por aí que aqueles que coçaram o bolso para pagar uma polpuda solenidade a ser realizada no Teatro Diplomata, e estão regularizados, serão privilegiados – receberão tranquilamente o tal pedaço de papel que não vale nada, mas que continuamos a gostar muito dele.

O que resultará disso tudo, não sei. Sei apenas que já estou tirando a poeira do meu nariz de palhaço, porque parece que ainda vou ter usá-lo é por muito tempo.

agosto 31, 2009

Os Reis do Gado

O Estatuto do Torcedor é uma história tão fantasiosa quanto as aventuras da Chapeuzinho Vermelho. Ficção científica barata que não engana nem o mais desatento dos boleiros. No Brasil, conforto, organização e bom atendimento não existem e, aparentemente, nunca vão existir. A venda de ingressos para o confronto entre Brasil e Chile, a ser realizado em Salvador no dia nove de setembro, foi apenas outro capítulo deste lastimável enredo.

Dizer que a fila estava quilométrica, além de ser clichê, não abarca a verdadeira dimensão do problema. O caso era mais grave. Milhares e milhares de pessoas se amontoaram em linhas desencontradas, debilmente organizadas por policiais militares que, não raro, deixavam as cocotinhas de nariz empoado passar a frente dos pobres condenados, totalmente desprovidos de beleza.

A espera para estes era, em média, de quatro horas, mas não podemos nos esquecer daqueles que bravamente lutaram por cerca de sete horas para conseguir o sonhado ingresso, ao custo de módicos cem reais. Mesmo assim, o público não ligava. Ignorava as constantes falhas do sistema dos caixas e comemorava a cada bilhete comprado, chacoalhando o plástico verde-amarelo como um troféu por sua persistência – em uma felicidade típica dos conformados em serem tratados como gado, emagrecendo os seus bolsos até o sangradouro financeiro de 2014.

No fundo da multidão, quase na saída do estádio, eu e Césinha Língua de Sogra, já torrados na paciência, aguentávamos o sol escaldante, entrecortado pela chuva torrencial, na esperança de adentrar o paraíso dos com entrada. À nossa frente, um jovem casal simbolizava toda a contradição que habitava aquele lugar. Ele protestava da desorganização, ela, calada, fingia escutar. Quando o rapaz cansou de tanto reclamar, a garota disparou.

Mor, me leva no aeroporto pra ver Kaká?

agosto 28, 2009

Noite das Batucadas

Eu odeio andar de buzú. É quente que nem o inferno, apertado igual lata de sardinha e balança mais que cama de motel velho. Pior ainda se você pensar na sujeira do equipamento, tão encardido que nem barata voadora tem coragem de arriscar sua integridade por ali. No meio desse furdunço, escutar as conversas dos outros é a única diversão saudável que nos resta, arte sobre a qual meu compadre Césinha tem um domínio inigualável.

Voltava ele de uma festa junina quando sentou em sua frente um sujeito forte toda vida, um armário três por quatro daqueles de assustar até candidato a marombeiro do ano, tão anabolizado que seu tronco ocupava dois terços da cadeira. Do seu lado, um garçonzinho meio frangote, lambuzado de perfume barato. Vinham conversando pelo caminho, botando as fofocas em dia enquanto meu compadre limpava as orelhas de modo a escutar melhor.

Lá pras tantas, o carregador de bandeja, notando um riscado no crânio sem cabelo do amigo, perguntou o que era aquela cicatriz. Foi no Carnaval, relatou o grandalhão, Tava eu lá no bloco dançano, vem um sacana bebo, passa a mão ni minha bunda e fica me chamano de gostoso. Aí, eu virei na porra e desci a madeira nele. Só que do nada veio um fardado e lascou as batucada ni minha cabeça. Ficou a marca.

O garçom se revoltou, saiu cuspindo fogo contra os policiais, Aqueles disgramado, como ele fez questão de frisar, mas a curiosidade de saber os detalhes sórdidos do caso logo falou mais alto, o que se revelou na mais simples das perguntas. Você tava onde? No Gandhi? O gigante deu de ombros, Que nada. Tava nas Muquiranas.

agosto 7, 2009

Os Crimes da Mesa de Bar

Certa vez, uma dessas folhas informativas que, se você apertar, escorre sangue de encher reservatório de hospital, chegou com uma notícia que me deixou de cabelo em pé. Contava o caso de cinco amigos, todos cheios daquela malandragem típica dos veteranos de boteco, local em que os mancebos costumavam se reunir para beber todo santo dia, não importando que outros compromissos estivessem à frente.

O primeiro morreu no sábado de aleluia, encontrado sem vida pela empregada que chegava para limpar a sala do sujeito. Estava desnudo, em decúbito ventral e envergando o corpo pela privada, descreveu o periódico. A polícia aventou todo tipo de suspeita pela morte, mas só a autopsia conseguiu provar que foi envenenamento. O rapaz estava era cheio de estricnina no sangue.

O segundo faleceu uma semana mais tarde, desta vez, atropelado pelo próprio caminhão, que entrou desgovernado por sua varanda sabe-se lá Deus como e espremeu o moribundo no gradeado da porta. Teve que ser velado de caixão fechado porque nem a mãe do infeliz teve coragem de olhar praquele crânio esfacelado.

A notícia dos óbitos correu mundo, tudo quanto é rato de birosca estremecendo de pânico, achando que seria o próximo alvo do cruel assassino. Os três remanescentes do grupo eram os mais medrosos, obviamente. Trancaram-se em casa e prometeram só sair quando o elemento homicida fosse preso.

De nada adiantou. No mês seguinte, a história se reprisou com um deles aparecendo sem vida, atravessado por um espeto de churrasco enquanto dormia. Não teve nem tempo de reagir. Já acordou com a lâmina atravessando os olhos. No mesmo dia, o quarto cadáver surgiu para espanto da polícia, que continuava sem pistas. Só que agora foi arma de fogo. Um tiro certeiro no meio da testa.

O moço restante, Araújo, não sabia o que fazer. Mandou rezar missa, obrar macumba e não sei mais o quê. Comprou patuá, pé de coelho, trevinho e não passava embaixo de escada nem sob tortura severa. Afastou-se do mundo, fugiu para o sertão e só andava armado até os dentes.

No entanto, nem precisava de tudo isso, já que, de súbito, o meliante foi preso. Era a própria namorada de Araújo, encarcerada enquanto tentava queimar as provas de seus delitos. Um mendigo desconfiou e chamou os detetives. Flagrante imediato. Levada para a delegacia, a moça se recusou a confessar. Mas, apertada delicadamente por um capataz de cadeia, admitiu a autoria das execuções.

O motivo? Ciúme do namorado. Veja bem, explicou o delegado em entrevista ao veículo noticioso, o rapaz era um bom garoto, mas a moça achava que a influência dos amigos era perniciosa. O menino se transformava e isso ela não podia aceitar. Precisava dar uma solução no problema e o jeito encontrado foi eliminar os culpados pelo comportamento desregrado de Araújo.

Não vou mentir que a explicação não me convenceu muito, não, mas um grande amigo meu, Genival das Virgens, o maior safado que este Nordeste já conheceu, quando viu a fotografia da criminosa no jornal, tratou logo de concordar com o delegado.

- Vá por mim. Mulher feia dessa só pode ser matadora. Quando não mata di faca, mata di susto!

agosto 4, 2009

Rádio Pirata

Foto: Jônathas Araújo / LabFotoFoto: Jônathas Araújo / LabFoto

Escutar futebol pelo rádio sem sentir o coração abrir espaço pela goela para saltar de pirueta pela boca é tarefa das mais difíceis, ainda mais se o jogo for de final de campeonato porque aí, meu caro, a adrenalina é tanta que até o mais saudável dos torcedores há de sentir uma pontada no lado esquerdo do peito a cada gol perdido.

A cavalgada começa embrutecida pela voz do narrador, mais angustiante que consultório de dentista, piora com o barulho indecifrável da torcida e não termina nem com o apito do juiz, já que o ouvinte nunca sabe para que lado ele apontou.

Quando junta tudo isso, não tem quem agüente, é capaz até do sujeito ficar maluco, o que, dizem por aí, foi exatamente o que aconteceu décadas atrás com um desses destemidos locutores do interior do estado, sempre tão ligados quanto letreiro de motel em beira de estrada.

Reza a lenda que ele, apaixonado pelo ofício de radialista, transmitia até baba de colégio, mesmo que a audiência fosse mais fantasiosa que fantasma de igreja. Seus chefes, no entanto, interessados no lucro da atividade, estavam insatisfeitos com os custos da operação e mandaram encerrar aquela farra do boi.

O problema é que, na semana seguinte, estava marcado o jogo do ano e o elemento, desesperado por se ver impedido de realizar o que mais gostava, cometeu um desatino. Escondeu-se em um armário junto com um técnico e, quando todo mundo havia ido embora da redação, começou a comentar a partida, ouvindo os lances por uma rádio rival e recontando a história com suas próprias palavras.

O projeto tinha tudo para dar certo, se não fosse um terrível golpe do destino. Logo após a marcação de um pênalti, a chuva forte na região fez o sinal do locutor concorrente desaparecer e o narrador-invasor ficou sem ter o que relatar. Ele, porém, não se deixou abater. Como o boleiro que ia para a cobrança era bom igual doce de leite de fazenda, narrou o gol mesmo assim.

Minutos depois, a transmissão se restabeleceu e o trabalho continuou, o radialista rezando para ter acertado na previsão, a bola rolando e nada do placar ser anunciado, o que só aumentava a tensão do aquário clandestino que, a esta hora, estava mais abafado que inferninho da Carlos Gomes.

Lá pras tantas, quando finalmente confirmaram o tento marcado na penalidade, o locutor intruso não se conteve de alegria. Enfartou no meio da transmissão.

julho 31, 2009

Cachorro Abandonado

A Letrário Editora, uma companhia portuguesa de contos na internet, acaba de publicar um de meus textos, minha redação favorita e que emprestou seu nome ao blog deste que vos fala. Clique AQUI para lê-lo.

Interessante contar que, por pouco, este textículo quase deixou de existir. Acordei às 3h da manhã e ele me surgiu à cabeça. Eu, porém, sonolento como estava, tentei descartá-lo. Uma hora depois, eu ainda estava acordado com as palavras não parando de me atormentar.

Levantei, escrevi um rascunho no verso de um trabalho e voltei a deitar. Mesmo assim, continuei inquieto, o que me fez desistir de vez de dormir e sentar as nádegas na cadeira para dar contornos finais ao dito cujo.

Quando terminei, o dia já estava claro. Mandei o escrito para o glorioso Breno Fernandes dar uma revisada e cá está ele sendo publicado.

julho 28, 2009

Jornalismo Cidadão

Faz tempo que jornalismo não é caso de polícia, mas, se reportagem mal feita fosse contravenção, ia ter nego dormindo no xadrez de domingo a domingo, culpa da gripe suína, doença tão cheia de trocadilhos que espectador desatento acha até que é nome de churrascaria nova no pedaço. Os exemplos são incontáveis, porém, a fim de ilustrar minha teoria sem encher o saco do leitor, vou citar apenas duas pedradas presenciadas nesta semana que se vai.

Primeiro, uma repórter já amassada pelas mazelas da vida e uma matéria para tranquilizar o público cativo do Jornal da Band. Não entrem em pânico, dizia ela. Não há motivo para isso. O problema era que seu entrevistado, um médico sanitarista que tava mais para satanista, parecia avisar justamente o contrário. Se você der um aperto de mão na balada, explicava o sujeito, pode se contaminar. Se você cumprimentar com um beijo, pode se contaminar. Conversar perto, também, e por aí vai – nem precisa ser semiótico para saber que um contato mais íntimo, então, nem pensar, o que certamente agrada a igreja, já que essa geração YouTube anda mesmo muito saidinha.

Caso pior se passou com uma mocinha carinha-de-Leblon que ostentava o microfone da Globo News em matéria na porta de um hospital cujo nome minha memória decidiu conveniente esquecer. Achava-se por lá uma senhora mais rodada que caroneiro de beira de estrada, máscara de proteção no rosto e cadeira de rodas a segurar as ancas. A dona estava mal. Reclamava de dores fortíssimas pelo corpo, tosse insistente e enxaquecas lancinantes. No entanto, os exames deram negativo para a bendita gripe e a paciente foi mandada para casa. “Saiu aliviada”, garantiu a repórter.

Eu não sou médico, mas o caso da mulher é realmente de se relaxar. Uma dengue violenta que, pela sua cara de candidata a velório, sabe-se lá como é que vai se curar. Influenza no dos outros é refresco!

julho 27, 2009

A Bahia é Linda

Pôr-do-Sol do Rio Vermelho em Festa de IemanjáPôr-do-Sol do Rio Vermelho em Festa de Iemanjá Foto: Davi Boaventura/LabFoto

Turista vê beleza que os nativos nem ao menos desconfiam, isso é fato. Alguns, porém, dotados em excesso pela sensibilidade estética, tendem a transformar rocambole em caviar, caso de uma distinta senhora cujo sotaque arrastava a métrica das palavras que, tempos atrás, dividiu um arejado coletivo com a minha pessoa.

Sentei no banco de trás e ela já estava lá, emperiquitada da cabeça aos pés, cheirando perfume de madame, doce igual chocolate, acompanhada de um moço quente na metrossexualidade e observando a Bahia ao sol do verão. Estava toda maravilhada, cheia de Nossas, Uaus e Carambas, até que uma perfeição misteriosa lhe fez exprimir um sonoro MEU DEUS!, tão claro e empolgado que fez a turba de passageiros revirar o pescoço, espantada.

Não teve esse que não se levantasse para tentar descobrir que bafafá era aquele, mas ficamos todas na ignorância enquanto a donzela destilava ave-marias e não se cansava das exclamações. Quando desistimos de procurar a tal nova maravilha do mundo moderno, eis que surge a resposta do modo mais inesperado:

- QUE AZULEJO LINDO!

Até o interlocutor da mocinha olhou estupefato, mas, como não podia se admitir tolo feito o resto néscio do buzú, disparou uma resposta tão exultante que só faltou ser escoltada por uma lágrima de emoção. Não demorou e a moçoila enxergou outra epifania:

- OLHA PRAQUELE PONTO DE ÔNIBUS! É TÃO ART DECÓ!

O companheiro da garota concordou efusivo, deslumbrado. Bateu palmas e saltitou. Em seguida, percebeu que nem ele sabia o que a amiga estava querendo dizer e retrucou:

- O que é Art Decó?

A mulher, é claro, não perdeu a pose.

- É UMA COISA LINDA, BONITA, GOSTOSA!

Ao passo que a réplica foi um impressionante poxa e um silêncio profundo na sequência. Dez minutos depois, os dois desceram na Sereia de Itapuã. Mal tocaram o solo e um malemolente travestido de bebum levou as mochilas dos coitados. Se eles reclamaram? Que nada. Devem ter achado lindo.

julho 26, 2009

O Grito

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Não sou torcedor do Vitória, mas, em homenagem ao novo terceiro colocado do Brasileirão, não poderia deixar de postar esta foto tirada por mim no dia 11 de março de 2007, triunfo do Rubro-Negro sobre o Bahia com o placar de 4 a 2.

Jogaço que não me sai da memória pelos gritos de felicidade extrema que chegavam à beira do gramado da Fonte Nova, onde este que vos fala estreava com uma lente na mão. Eram berros agudos, estridentes e sem nexo, tão alucinados que me fizeram chorar escondido ao fim do primeiro tempo.

Quando cheguei em casa, pouco sentia minha perna. Tomei banho, comi e deitei em minha cama, ainda escutando um zumbido no ouvido, e passei uma ou duas horas fitando o teto. Não sabia explicar o que havia se passado ali e até hoje continuo sem saber.

Futebol, sou obrigado a dizer, é realmente um sentimento complexo demais para se entender.