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A Bronca Tarda, Mas Não Falha
Madrugada de sábado. Eu, Luzete e mais dois primos assistindo vale-tudo na televisão para espantar o tédio da casa na praia. Um americano forte igual um tronco, todo escoriado, e um brasileiro menor da família Greice, jiu-jitsu na veia, mal sabia trocar um soco. O gringo em pé, castigando a coxa do tupiniquim com chutes, o brasileiro deitado, à espera para fechar o cara na guarda.
Lá pras tantas, minha vó, 80 anos, muito religiosa, entra na sala. Vem caminhando devagarzinho, e para em pé na ponta do sofá. Todo mundo fica logo preocupado. Luzete levanta e diz que vai no banheiro, eu finjo que estou dormindo, meus primos engolem seco, e a luta continua igual, o gringo em pé e o brasileiro no chão.
Minha vó olha, olha, olha, já dá para sentir o sermão sendo costurado no seu cérebro.
Na hora que Luzete retorna, crente que o pior já passou, ela lhe agarra pelo braço, e aí vem o golpe de misericórdia:
Ô, Lú, me diz uma coisa, não bate não é na cara não é?
A Viúva Indecisa
Depois dessa última que Dona Miló me contou, eu não duvido mais, esse negócio de amor além da vida é mesmo invenção que somente Hollywood parece acreditar. Semana retrasada, lá pros lados da Chapada, onde, segundo Genival das Virgens, só não é mais bonito porque as donzelas tudo já têm compromisso, um enterro deu o que falar. A viúva, uma macambúzia avançada na senilidade, encasquetou que ia se sepultar abraçadinha com o marido.
Durante o cortejo, que atravessou boa parte da cidade e do cemitério, tudo o que se ouvia era Me leva junto, Alceu, Me leva junto, Alceu e por aí vai. A vontade foi tanta que, na hora de baixar o caixão, a mulher, eufemisticamente acima do peso, tropeçou e caiu dentro da cova, e aí, meus caros, o único grito que se ouviu foi Me tira daqui, meu Deus, me tira daqui!
Os coveiros, é claro, operários prestativos que são, retiraram a senhora na maior agilidade, mas, antes mesmo do cadáver esfriar, já espalhavam pela cidade: só fizeram o serviço por pura pena do defunto.
O Canudo Desnudo
Dizem que entrar na UFBA é difícil. Pois eu estou achando difícil mesmo é sair de lá. Cinco anos de expectativas que explodem em uma grande lambança. E tudo por culpa de um erro grotesco de profissionais que, por falta de um adjetivo melhor, só posso considerar como inacreditavelmente despreparados. Para quem ainda não está familiarizado com a situação, explico.
Em meados de 2009, os formandos da Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia deveriam prestar o Exame Nacional de Desempenho de Estudantes (Enade). Todos deveriam ser inscritos, mas, por causa do erro mencionado acima, nem todos foram. Trinta e um ficaram de fora da lista e, agora, esses trinta e um, que à época se acharam sortudos por não perderem um domingo em uma prova chata, estão impedidos de receber o diploma.
Se isso não fosse o bastante, as instâncias universitárias resolveram jogar mais pimenta no enredo, e decidiram que ninguém, repito: ninguém, está apto a receber o bendito documento. A confusão, claro, se instalou.
Uns já entraram na justiça, outros pretendem seguir o mesmo caminho e, para não perder o costume de nosso país tão civilizado, corre o boato por aí que aqueles que coçaram o bolso para pagar uma polpuda solenidade a ser realizada no Teatro Diplomata, e estão regularizados, serão privilegiados – receberão tranquilamente o tal pedaço de papel que não vale nada, mas que continuamos a gostar muito dele.
O que resultará disso tudo, não sei. Sei apenas que já estou tirando a poeira do meu nariz de palhaço, porque parece que ainda vou ter usá-lo é por muito tempo.
Os Reis do Gado
O Estatuto do Torcedor é uma história tão fantasiosa quanto as aventuras da Chapeuzinho Vermelho. Ficção científica barata que não engana nem o mais desatento dos boleiros. No Brasil, conforto, organização e bom atendimento não existem e, aparentemente, nunca vão existir. A venda de ingressos para o confronto entre Brasil e Chile, a ser realizado em Salvador no dia nove de setembro, foi apenas outro capítulo deste lastimável enredo.
Dizer que a fila estava quilométrica, além de ser clichê, não abarca a verdadeira dimensão do problema. O caso era mais grave. Milhares e milhares de pessoas se amontoaram em linhas desencontradas, debilmente organizadas por policiais militares que, não raro, deixavam as cocotinhas de nariz empoado passar a frente dos pobres condenados, totalmente desprovidos de beleza.
A espera para estes era, em média, de quatro horas, mas não podemos nos esquecer daqueles que bravamente lutaram por cerca de sete horas para conseguir o sonhado ingresso, ao custo de módicos cem reais. Mesmo assim, o público não ligava. Ignorava as constantes falhas do sistema dos caixas e comemorava a cada bilhete comprado, chacoalhando o plástico verde-amarelo como um troféu por sua persistência – em uma felicidade típica dos conformados em serem tratados como gado, emagrecendo os seus bolsos até o sangradouro financeiro de 2014.
No fundo da multidão, quase na saída do estádio, eu e Césinha Língua de Sogra, já torrados na paciência, aguentávamos o sol escaldante, entrecortado pela chuva torrencial, na esperança de adentrar o paraíso dos com entrada. À nossa frente, um jovem casal simbolizava toda a contradição que habitava aquele lugar. Ele protestava da desorganização, ela, calada, fingia escutar. Quando o rapaz cansou de tanto reclamar, a garota disparou.
Mor, me leva no aeroporto pra ver Kaká?
Noite das Batucadas
Eu odeio andar de buzú. É quente que nem o inferno, apertado igual lata de sardinha e balança mais que cama de motel velho. Pior ainda se você pensar na sujeira do equipamento, tão encardido que nem barata voadora tem coragem de arriscar sua integridade por ali. No meio desse furdunço, escutar as conversas dos outros é a única diversão saudável que nos resta, arte sobre a qual meu compadre Césinha tem um domínio inigualável.
Voltava ele de uma festa junina quando sentou em sua frente um sujeito forte toda vida, um armário três por quatro daqueles de assustar até candidato a marombeiro do ano, tão anabolizado que seu tronco ocupava dois terços da cadeira. Do seu lado, um garçonzinho meio frangote, lambuzado de perfume barato. Vinham conversando pelo caminho, botando as fofocas em dia enquanto meu compadre limpava as orelhas de modo a escutar melhor.
Lá pras tantas, o carregador de bandeja, notando um riscado no crânio sem cabelo do amigo, perguntou o que era aquela cicatriz. Foi no Carnaval, relatou o grandalhão, Tava eu lá no bloco dançano, vem um sacana bebo, passa a mão ni minha bunda e fica me chamano de gostoso. Aí, eu virei na porra e desci a madeira nele. Só que do nada veio um fardado e lascou as batucada ni minha cabeça. Ficou a marca.
O garçom se revoltou, saiu cuspindo fogo contra os policiais, Aqueles disgramado, como ele fez questão de frisar, mas a curiosidade de saber os detalhes sórdidos do caso logo falou mais alto, o que se revelou na mais simples das perguntas. Você tava onde? No Gandhi? O gigante deu de ombros, Que nada. Tava nas Muquiranas.